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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Extras #2

Deus da Carnificina

O sangue camuflado com cordialidade

Dirigido pelo cineasta franco-polonês, Roman Polanski, Deus da Carnificina (Carnage) é uma adaptação da peça homônima da francesa Yasmina Reza, que já foi encenada no Brasil, em 2011, ano em que o filme teve sua exibição aqui no país através da 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.  A francesa é coroteirista do filme e se junta a Polanski e ao time de notáveis atores Kate Winslet, Jodie Foster, John C. Reilly e Christoph Waltz – três já foram premiados com o Oscar - que transforma uma situação, para muitos, simples, cotidiana e banal, em uma zona de tensão estabelecida dentro de um apartamento em Nova York.

Tudo começa em uma cena externa, em um parque onde garotos brincam. Ao começarem a se aproximar da câmera – o diretor quer deixar explícito o estopim do efeito – um dos garotos atinge o outro com um pedaço de pau, arrancando-lhe dois dentes. Depois disso, o “palco” está preparado para os pais dos dois garotos tentarem uma reconciliação e minimizar os efeitos de discórdia pendentes entre eles.

Uma curiosidade: a cena externa, em Nova York, foi filmada por um dos  assistentes do diretor. Roman Polanski está proibido de pisar em solo americano desde o escândalo que causou sua condenação a mais de 30 anos. Ele foi acusado de ter estuprado uma jovem menor de idade no país. Cumprindo prisão domiciliar, ele escreveu o roteiro do filme. Acredita-se que a ideia de um longa em formato claustrofóbico, fechado por paredes, tenha existência nos sete meses de confinamento em seu chalé, na Suécia.

A primeira lembrança que me ocorreu ao começar assistir ao mais recente filme de Polanski foi o filme Rope (Festim Diabólico, 1948), de Alfred Hitchcock, que também foi adaptado de uma produção teatral escrita por Patrick Hamilton e que, igualmente, se passa dentro apenas de um ambiente. Se em Festim Diabólico Hitchcock consegue estabelecer o suspense autoral e absoluto que tanto lhe deu – de maneira tardia – prestígio como um dos grandes diretores até hoje, Polanski, de forma profissional e criativa crava o drama em Deus da Carnificina.

Escalando atores competentes para dar vida às personagens complexas e que sutilmente devem ir tomando formas através de comportamentos, expressões e diálogos, a história comporta uma sequência estabelecida, mas que vai levando o espectador a adentrar aos poucos naquela discussão que apresenta seu lado cômico e trágico, embasado na falha da comunicação humana. Uma lacuna que é representada no filme pelos falsos sentimentos e expectativas diante do próximo e das crenças e desejos individuais.

A oscilação de humor entre os casais é como percebemos que ninguém está satisfeito e à vontade com o quê ali estava sendo proposto. O personagem Alan, interpretado pelo excelente ator Christoph Waltz, em uma das cenas chega a dizer: “não tenho utilidade aqui.” Também são colocados em jogo os aspectos morais e financeiros como forma de agressão e tentativa de imposição de culpa entre eles. A cultura de cada um interfere em uma tentativa saudável de resolver o problema de cordialidade com o próximo.

É engraçado e fantástico como os papéis, em parte, vão se invertendo. No começo, é servido aos convidados bolo de pera e maçã seguido de xícaras e mais xícaras de café, representando uma forma de acalmar os nervos encobertos pela falsa educação. Apenas para evitar brigas, não por desejo próprio. O casal residente senta-se em poltronas de costas para a janela. O pai e a mãe do garoto agredido, uma figura de “julgadores”. O outro casal, os pais do agressor, está em um sofá, isto é, no banco dos réus. No segundo ato do filme, entre acusações, ofensas e desabafos, tudo se torna uma terapia compartilhada. Os acusadores agora são acusados, sentando no lugar em que os outros estavam. O café e o bolo, naquela altura do campeonato, saíram de cena para dar lugar a um uísque 18 anos.

Não tive a oportunidade de ver a peça teatral, mas digo que o filme consegue comportar o peso que é formular uma técnica para conseguir prender o público através de gestos e diálogos, sem que isso se torne entediante e redundante. Roman Polanski realmente é um grande diretor e merece o reconhecimento pelo trabalho feito para transpor Deus da Carnificina para a tela dos cinemas.   

Ficha Técnica

Deus da Carnificina (Carnage, 2011)
Gênero: Drama/Comédia
Diretor: Roman Polanski
Roteiro: Yasmina Reza e Roman Polanski
Elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, John C. Reilly,
Christoph Waltz.

(Texto originalmente escrito e publicado para a coluna CineArt, do jornal Boqnews)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Pipocafé #2


Sete Psicopatas e um Shih Tzu

Violência, humor...ação!

Hollywood...” é o que se lê no famoso letreiro que fica no que representa o Parque Griffith, em Los Angeles, logo na primeira cena em Sete Psicopatas e um Shih Tzu. Na sequência, um debate sobre violência, entre dois assassinos da máfia italiana, - com pitadas de características do clássico O Poderoso Chefão – envolvente, daqueles que tomam cenas em filmes de Quentin Tarantino, tiram a atenção do espectador para a introdução da peça chave em um emaranhado de conflitos que envolvem alcoolismo, um roteiro de cinema, ladrões de cachorros e claro, psicopatas: o assassino em série Valete de Ouros.

Usar um personagem alcoólatra para designar sua atividade como roteirista em um momento de escassez criativa é um dos tons que levam o longa a ser considerado – em parte – do gênero comédia. Há também a situação que, por si só, é cômica o bastante para que, aqui no Brasil, levasse a distribuidora traduzir o título Seven Psychopath com o complemento “...e um Shuh Tzu”: a corrida desesperada de um mafioso, o sociopata Charles Costello, e sua gangue, que vai atrás de seu querido cãozinho de origem chinesa sequestrado.

Entre fatos e versões, o roteirista Marty (Colin Farrell) procura analisar e apresentar um enredo onde sete psicopatas compõem uma história original, digna de quebrar os clichês pragmáticos de tantas outras histórias apresentadas no cinema americano, onde, armas, tiros, sangue, explosões e decapitações são os maiores atrativos para uma boa bilheteria semanal. Fictícios e, posteriormente, reais, personagens e situações vão tomando forma e, quase que intencionalmente, o tão sonhado roteiro vai se escrevendo diante dos olhos do escritor bêbado.

A produção procura apresentar exatamente a ideia que se passa na cabeça de Marty: o outro lado de um psicopata. O lado humano? Talvez. É difícil considerá-los extraterrestres, já que partilham conosco o mesmo habitat. O diálogo, neste caso, torna-se um grande divã entre os desejos pessoais de cada um dos envolvidos. O sequestro do cachorro é o estopim para que o espetáculo seja montado e segredos comecem a ser revelados na trama junto aos conflitos emocionais existentes em cada um dos personagens.

Em uma sequência de cenas é até divertido ver, através do relato de um serial killer mais velho, junto de sua antiga amada (outra assassina), a caça a outros assassinos em série famosos, como o Zodíaco e o Assassino do Luar, ambos, até hoje, com suas identidades desconhecidas perante as autoridades.

O time de atores escalados para dar vida ao filme não fica nada para trás. Claro, cada um com seus altos e baixos, mas nada que interfira negativamente na carreira profissional. Um deles, Sam Rockwell – quem não se lembra dele em A Espera de um Milagre? – ator perfeito para interpretar um psicopata ao lado de outro excelente ator, Woody Harrelson, que já provou um pouco de tudo, até caçador de zumbis em Zumbilândia. Um pouco mais cotado para produções, o ator Colin Farrell aparece muito mais carismático e com êxito do que no recente reboot O Vingador do Futuro. Uma pena foi ver a atriz Gabourey Sidibe praticamente encarnando novamente a personagem Preciosa, com suas falas embaladas em choros e sentimento penoso. O engraçado, é que o nome – Charice - da personagem neste filme apresenta o mesmo tom fônico do nome Clarice (Precious Jones) de Preciosa. Por último, e não por uma ordem de preferência ou importância, ele, o lendário Christopher Walken, com seu jeito sereno e enigmático interpreta um importante personagem no filme.

Fazendo uma mistura de suspense, drama e comédia, o filme, mesmo perdendo um pouco do seu fôlego lá para o terceiro ato, mantém uma linha interessante sobre o desfecho do conflito, instigando o espectador a ficar até o último instante ligado na trama.

Fazendo menção ao tema “serial killer”e “psicopatas”, acredito que os seguintes filmes (de diferentes gêneros) possam complementar o acervo fílmico do leitor. São eles:

- Zodíaco
- Seven: os sete crimes capitais
-Onde os fracos não tem vez

Ficha técnica

Sete Psicopatas e um Shih Tzu
(Seven Psychopaths, 2012)
Direção: Martin McDonagh
Roteiro: Martin McDonagh
Elenco: Colin Farrell, Sam Rockwell, Christopher Walken, Woody Harrelson, Abboe Cornish, Olga Kurylenko, Brendan Sexton III, Gabourey Sidibe, Helena Mattsson, Jamie Noel, Joseph Lyle Taylor.